Muitas vezes, por maior que seja o conhecimento de uma pessoa, por mais que tenha sido acurada sua análise sobre uma ação (quer se a análise é técnica, quer se a análise é fundamentalista), o desempenho de um ativo é diferente daquele que fora projetado. Por que isso acontece? Um dos motivos é que esse ativo pode sofrer futuramente o impacto de uma dada política governamental, anunciada há pouco, e a pessoa não esteja levando isso em conta, na hora de fazer sua análise.
Digamos, por exemplo, que o governo eleve a alíquota do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para um dado produto. Se a empresa que você investiu, comprando ações, for a vendedora de tal produto, ainda que as perspectivas sobre o desempenho da ação sejam animadoras, pode ser que isso não adiante muito. Isso, porque os analistas vão calcular que uma vez o IPI aumentando, será elevado o custo de produção. Esse custo mais elevado será repassado para o produto. Consequentemente, uma vez o preço sendo mais alto, parte das pessoas que antes compravam o produto deixarão de comprá-lo. Ou ainda, comprarão em menor quantidade, porque estão limitadas pelo seu orçamento e, dependendo do aumento no preço, ficará difícil comprar o produto ou, ainda, comprar a mesma quantidade que se comprava, do produto, antes do aumento no IPI. Esse é um dos motivos para que muitas vezes uma ação oscile de um dia para o outro sem, aparentemente, se ter uma explicação clara de tal fato.
A política econômica pode facilitar a dinâmica de um setor da economia e dificultar outro setor. Mais ainda, continuando com o exemplo do aumento do IPI para um dado produto: se o aumento do IPI se der em um único produto, tal como antes, esse impacto para os produtores desse produto será sentido de forma desigual.
Uma empresa mais bem estruturada, com eficiência no processo de produção pode estar em uma situação tal que a permita repassar pouco o aumento do IPI para o seu preço de venda. Já outras empresas que produzam o mesmo produto podem estar em uma situação tal que não tenham escolha, a não ser repassar o aumento do IPI para o preço final de venda. Dessa forma, a empresa mais eficiente, por não ter repassado todo o custo do aumento do IPI para o preço final de venda, acaba tendo uma maior competitividade dentro do setor. Como seu preço aumentou menos, ela vai, por certo, aumentar sua parcela do mercado. Portanto, tomará parcela do mercado das outras empresas que vendem o mesmo produto. Assim, essa empresa mais eficiente vai ter seu market-share elevado. (Market-share é a parcela do mercado que uma empresa possua. Logo, se ela tem um market-share de 88%, isso significa que ela é a responsável por 88% das vendas de um setor da economia; ou seja, do produto que ela vende, ela sozinha dá conta de 88% de toda procura por tal produto.) com uma parcela do mercado maior, ela terá um maior poder dentro daquele setor em que atua, o que denota a possibilidade de que ela venha, mais tarde, a adquirir outras empresas menores do setor.
Além disso, o fato de ter repassado o aumento no IPI em uma porcentagem menor do que as outras empresas do seu setor repassaram para o preço final do produto, pode fazer com que a sua receita aumente mais do que o aumento nos custos, fruto do aumento no IPI. Se isso ocorrer, ela terá um lucro maior do que os analistas projetavam. Com um lucro maior, é natural que a cotação dessa ação se eleve.
Portanto, o aumento do IPI que seria visto, inicialmente, como algo prejudicial, acabou sendo vantajoso para a empresa que era mais eficiente. Por isso, nem sempre, uma política econômica que pareça ruim, é, de fato, ruim. Muitas vezes, o cidadão comum que opera no mercado por conta própria, sente-se feito de bobo, por não entender como algo que lhe parece óbvio, acaba sendo interpretado de forma diferente pelos analistas. Viu-se que os analistas, no exemplo supracitado, viram motivos mais complexos que levem a essas atitudes, aparentemente, contraditórias.
Entender a política econômica e o impacto dela sobre as empresas é importante para se entender a dinâmica das ações. O grande problema do analista técnico é que ele baseia sua análise nos movimentos dos ativos no passado. É uma informação útil e ajuda muito na análise, eu mesmo faço uso da análise técnica em aplicações mais curtas, como um swing trade. No entanto, a dinâmica dos noticiários é muito relevante, uma vez que impacta as projeções que os analistas fazem sobre o lucro futuro das empresas.
Olhar o que passou é útil, mas quando se compra um ativo, o analista deve se basear no que se projeta para o futuro. Isso não diminui a importância da análise técnica na avaliação de compra ou de venda de uma ação. Mas não se pode acreditar que ela vá resolver todos os seus problemas. Ela é um instrumento útil, como a análise fundamentalista também o é. Do mesmo modo, a boa interpretação analítica dos noticiários, principalmente a interpretação do impacto das políticas econômicas sobre o lucro das empresas, também é outro ferramental importante. Não se deve abrir mão de nada em uma análise, cada qual tem seu papel.
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