Blog destinado a troca de informações sobre aspectos ligados à análise econômica e financeira, análise de ativos e análise da conjuntura econômica.
terça-feira, 12 de abril de 2011
O Aumento no IOF
A ideia do aumento do IOF está consubstanciada em duas vias. Por um lado compensar a perda de receitas oriundas da revisão da tabela de isenção do IR (imposto de renda), a outra para frear o consumo. A questão mais peculiar nisso tudo, é que o país, nos últimos anos, quando queria reduzir o consumo, por entender que esse era inflacionário, elevava a taxa de juros Selic. Por que dessa vez foi diferente?
Nos últimos anos vem se elevando o grau de endividamento do brasileiro médio (em 2010, ano passado, o volume de dívidas do brasileiro bateu recorde, indo a R$ 555 bilhões, o que represenvata à época, quase 40% da renda anual da população, segundo dados da LCA Consultores). Isso coloca em risco o crescimento sustentado da economia. Não no presente, em que a economia crescendo a taxas razoáveis. No entanto, qualquer situação que gere desemprego e ponha um freio na economia do país representará um grande risco de inadimplência. Ciente disso, o governo tenta conter o consumo e a inadimplência ao mesmo tempo em que mantém sua receita provinda da arrecadação tributária.
Se, para conter o consumo, o governo utilizasse a elevação da taxa de juros Selic, teríamos um efeito neutro sobre toda a economia. No entanto, aumentaria os gastos do gerenciamento da dívida pública, já que 32,53% da dívida pública federal é formada por LFTs (Letras Financeiras do Tesouro), cujo indexador é a taxa de juros selic.
Essa escolha de aumentar o IOF nas compras a prazo, somado ao aumento para daqui a cerca de 30 dias do IOF no cartão de compras no exterior, ao invés do aumento da Selic, mostra que o governo não está preocupado apenas em conter o consumo das famílias. Pode-se argumentar que o motivo maior é o de controlar o aumento na inadimplência que, em um outro momento futuro, pode deixar as empresas brasileiras que dependam do consumo interno em uma situação difícil. O objetivo é tentar desestimular o crédito, as compras a prazo.
É esperado que vá ocorrer uma freada no consumo, porque as empresas se anteciparão reduzindo seus estoques e suas produção. Nada absurdo, apenas o necessário, dado que o IOF não tem um impacto tão imenso assim nos custos de produção. Mas por certo isso reduzirá o incentivo a investir, a expandir a produção e arrefecera o crescimento em determinados setores. A consequência é a redução esperada no fluxo de caixa futuro para os próximos períodos. E, por conseguinte, um espaço um pouco menor do que o seria para o aumento no preço de cotação das ações.
Ainda estamos com espaços para crescer e a economia continuará assim. O governo está apenas corrigindo os rumos. O triste não é o aumento no IOF para as compras a prazo ou no exterior. triste é saber que o produto brasileiro é caro porque o custo de produção é elevado. Elevado pela excessiva carga tributária, pela perda de parte da produção nas estradas mal cuidadas, perdas de produção que se deterioram nos armazéns públicos em mal conservação, perda de produção nos galpões dos portos mal conservados e mal equipados. Triste é saber que esse aumento do IOF não vai para a melhoria da infraestrutura do país, não vai reduzir o custo do escoamento da produção. O aumento do IOF só entrará no fluxo de caixa das empresas para onerar o custo, sem contrapartida governamental para melhorias na infraestrutura e consequências como aumento das receitas ou redução de perdas de produção, como supradito.
É verdade, vale a ressalva, que o governo manterá as inúmeras linhas de crédito subsidiadas que oferece ao empresariado nacional. Sob a triste pena da acomodação e volta da ineficiência industrial. Em nome, é claro, do desenvolvimentismo nacional.
Para os do mercado acionário brasileiro, esperemos um espaço um pouco menor para o crescimento da ações projetados anteriormente. Vale dizer, provavelmente, teremos nas próximas semanas uma revisão para baixo do preço esperado para as ações daqui a 1 ano.
domingo, 20 de março de 2011
O Quanto a Política Econômica Pode Afetar Nossa Vida
No entanto, o efeito do Plano Real foi além disso. Existem alguns motivos que fazem com que as taxas de juros sejam elevadas, no Brasil, entre eles a inadimplência e a baixa poupança nacional. O Brasil tinha até antes do Plano Real um histórico de ter realizado 7 acordos com o FMI e ter feito o favor de descumprir os 7. Isso muito ocorria devido as constantes desestabilidades monetárias que o país sofria. A partir do Plano Real, com o compromisso firmado com a estabilidade monetária, não era mais possível ao governo brasileiro imprimir mais moedas para pagar a dívida contraída no passado. Dessa forma, o governo precisava captar recursos no mercado, poupanças privadas, para pagar sua dívida para qual não havia poupado recursos para pagar. Assim, o governo precisava cumprir o que acordara antes e evitar uma escalada inflacionária, fruto da emissão monetária para pagar a dívida que vencia.
O problema é que a essa época, os primeiros anos do Plano Real, o gasto do governo era muito elevado frente as receitas. Ainda não havíamos iniciado o processo de escalada da carga tributária. Assim, gerávamos um déficit primário. Em outras palavras, gastávamos mais do que arrecadávamos. Mais que isso, o resultado primário é calculado confrontando-se as receitas e as despesas para um dado ano, antes de se calcular o pagamento dos juros da dívida passada. Assim, o governo não só não tinha recursos para pagar o principal e o juros do último período da dívida que estava vencendo, como também não tinha dinheiro para pagar os juros de outras dívidas que ainda não estavam vencendo e ainda precisava pegar dinheiro no mercado para pagar as despesas desse ano em curso para a qual o gasto fora superior a arrecadação (o tal déficit primário).
Em um cenário como esse, o montante que o governo precisa captar no mercado é muito elevado. Como nossas poupanças internas são baixas sofríamos de duas anomalias. A primeira, como havia mais pessoas procurando dinheiro emprestado do que pessoas dispostas a emprestar (aqui, para nós, pessoas tanto são físicas quanto jurídicas, da mesma forma, tanto podem ser públicas quanto privadas), o custo desse dinheiro era elevado. Chamamos em Economia o custo do dinheiro de taxa de juros. Portanto, fica claro o porquê nessa época as taxas de juros eram tão elevadas. Era elevada porque o governo gastava mais do que podia e ia pegar parte das poupanças que seriam direcionadas para os investimentos das empresas e às compras a prazo que as pessoas fazem no crediário. Assim, havia muita gente procurando empréstimos e pouca gente disposta a emprestar, fazendo com que, no Brasil, as taxas de juros fossem tão elevadas. Do mesmo modo, fica claro porque, após passarmos a ter durante anos seguidos uma política de superávit primário, as taxas de juros foram, aos poucos baixando no Brasil.
A outra anomalia, é que, o governo, para baixar as taxas de juros internas, precisava aumentar o volume de oferta de moeda. Para tanto, ele acabou deixando que adentrasse o país uma grande quantidade de recursos estrangeiros que vinham apenas especular com ativos, no Brasil. Por maiores que fossem as críticas na época, não havia outra escolha até que se ajustassem as contas internas. O ajuste veio por meio do aumento da carga tributária, que continua a crescer ainda hoje.
Dessa forma, sofriamos no início do Plano real com baixo montante de investimentos, fruto das elevadas taxas de juros. Isso gerava pouco emprego, aumentando as carências da população. Hoje, sofremos da carga tributária elevada. Com ela, os preços dos produtos são maiores do que o seriam de outra forma. A consequência é que temos dificuldades de fazer com que nosso produto concorra no exterior. Daí as inúmeras desonerações da produção que se destina ao estrangeiro, uma forma de desencarecer o produto nacional no exterior.
A outra distorção da elevada carga tributária é que nesse cenário a demanda é menor do que deveria ser. Pessoas que estariam dispostas a comprar uma determinada quantidade de certo produto, compram menos ou não o compram, simplesmente porque não cabe em seu orçamento, dado o elevado preço dos produtos no Brasil. A consequência é que os custos de produção são maiores (o aumento da produção gera ganhos de escala que fazem reduzir os custos unitários do produto, em muitas indústrias) e as receitas, dependendo da elasticidade preço do produto, também são menores na maior parte dos casos.
A política econômica afeta, e muito, sua vida. Fique de olho, é bom saber o impacto que uma dada política econômica pode ter sobre sua vida, sobre a vida de sua empresa ou sobre a vida de uma empresa que você queira investir.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Os Diferentes Fluxos de Caixa
No entanto, existem 4 espécies de fluxos de caixa (ou que pelo menos recebem essa alcunha), cada qual com sua atribuição específica. O primeiro deles é o Controle de Caixa, que registra os movimentos financeiros diários de uma empresa. Infelizmente, muitos denominam esse controle de caixa (de vital importância para a empresa) de fluxo de caixa. Na verdade, o controle de caixa registra as entradas de caixa daquele dia. Oriundas, por exemplo, de aplicações financeiras com recursos ociosos, vendas a vista, recebimento de vendas feitas a prazo em uma data anterior. Do mesmo modo, esse controle de caixa também registra as saídas de caixa daquele dia, oriundas, por exemplo, de pagamentos de duplicatas de compras contraídas no passado, pagamento de compras a vista, pagamentos de tributos naquele dia, entre outros pagamentos. No final do dia, o confronto entre as entradas e as saídas somado ao saldo existente em caixa no início do dia nos dá o saldo de caixa ao fim do dia, o qual será o saldo inicial do dia seguinte e assim sucessivamente.
Um outro fluxo de caixa é a Demonstração do Fluxo de Caixa, um demonstrativo contábil com projeto de lei tramitando no Congresso Nacional para torná-lo obrigatório para as sociedades anônimas de capital aberto, substituindo a Demonstração das Origens e Aplicaçõesde Recursos. Uma peça útil que retrata quais as contas contábeis que fizeram com que houvesse variação nas disponibilidades da empresa entre um período e outro.
O terceiro fluxo de caixa a se falar aqui é de vital importância para o gerenciamento dos negócios de uma empresa, tal qual o é o controle de caixa. Trata-se do fluxo de caixa estimado para os próximos meses. Por meio dele a empresa projeta quanto será o custo variável, quanto será o pagamento de tributos para os próximos meses, do mesmo modo, pode estimar a demanda de seu produto levando em conta a sazonalidade do mesmo, como vai se comportar o preço de seu produto no mercado, quanto deve realizar de vendas a prazo e o quanto esperar de inadimplência. Em suma, com o fluxo de caixa estimado para os próximos meses bem elaborado, a empresa pode projetar estratégias para aumentar sua participação no mercado ou, ainda, encontrar meios de se tornar mais eficiente, reduzindo custos desnecessários.
O quarto fluxo de caixa é aquele em o analista projeta o fluxo de caixa para os próximos anos, via de regra um cenário de 3 a 5 anos. Da mesma forma como é feito para o fluxo de caixa para os próximos meses, tal qual o fazemos para o fluxo de caixa para os próximos anos. A diferença é que a variação no preço dos insumos, a variação no preço do produto da empresa, o tamanho da demanda, entre outros fatores, podem sofrer maior variação. Daí a importância maior de se trabalhar com diferentes cenários. Em geral, o que se faz é montar um cenário moderado, que é o cenário normal e, daí, montar um cenário otimista e um pessimista. Para montagem do cenário otimista pode-se fazer com que a demanda aumente 10%, por exemplo, o preço aumente 10%; em suma, tudo melhore 10%, ou um fator de proporção fixo que se escolha, sem ser 10%. Ou ainda, se o analista tiver dados mais confiáveis, usar esses dados. Isso vai ser feito tanto para o cenário otimista, como explicado, quanto para o cenário pessimista. Após isso, calcula-se an sensibilidade dessas variação do cenário otimista (ou pessimista) em relação ao cenário padrão, dito, por nós, como moderado. Ao descontar esse fluxo de caixa para o valor presente, a empresa tem uma noção clara se o projeto (no caso de a empresa estiver adquirido uma nova planta de produção, por exemplo) é ou não viável, por meio das técnicas de decisão de investimento, como o valor presente líquido (VPL). Ou, no casop de um analista analisando o preço justo de uma ação, ele desconta o fluxo de caixa com a taxa de desconto que considera apropriada e vê o resultado que se deu na data 1. Por isso que a projeção do preço justo de uma ação se dá sempre para daqui a 12 meses, pois se desconta até a data 1 e não para a data presente (data zero).
sábado, 19 de fevereiro de 2011
A Importância de se Estimar a Demanda
A estimativa de demanda, por parte da empresa, segue duas visões: uma de curto e médio prazo e outra, mais estratégica, de longo prazo. A estimativa de curto e médio parazo da demanda serve para a previsão do fluxo de caixa para os próximo meses: digamos, os próximos 6 meses. A outra, de longo prazo, para elaborar os diferentes cenários que podem surgir diante dessa empresa e a sensibilidade que se tem para uma variável no estudo. Exemplo, se o preço de venda estiver, digamos, 20% acima do estimado para o cenário moderado, qual o impacto que isso terá sobre o Valor Presente Líquido (vale dizer, o valor presente do fluxo de caixa estimado para o futuro) do estudo em questão.
Ambos os estados, quer de curto e médio prazo, quer de longo prazo, são importantes para a empresa. Para o profissional que estuda se deve ou não comprar um ativo saber as perspectivas para o fluxo de caixa dos próximos meses talvez não seja tão fácil, uma vez que não terá o volume de vendas dos últimos meses e nem tampouco, a sazionalidade dos anos anteriores para saber o percentual da mesma e o quanto impacta as vendas de um mês para o outro. Afinal, é sabido que certos produtos encontram maior demanda certos meses em detrimento de outros meses. No estanto, este pode, ainda sim, obter a demanda futura para os próximos anos, uma vez que pode, por meio de uma regressão (seja simples, seja múltipla - técnica econométrica...não falaremos dela nessa postagem, fica essa possibilidade para o futuro) projetar um intervalo de confiança para essa demanda. Assim, com o volume de vendas em um intervalo de confiança, este pode projetar como variará, dada a conjuntura econômica que se espera para a economia e para o setor específico do produto da empresa em questão, obter a receita e o custo de produção para os próximos anos.
Óbvio, estamos em um exercício de estimação. Tanto para a empresa, quanto para o analista dessa empresa que deseja comprar seu ativo (ou, quiçá, vendê-lo) não se terá certeza absoluta de nada, apenas se está dando maior embasamento para o futuro, tendo parâmetros mais próximos para o que realmente se espera para o futuro. Não obstante não se ter certeza de nada, ainda assim isso é relevante, na medida que nos dá um guia de ação. No entanto, deve ficar claro, tanto para quem analisa a empresa quanto para a empresa em si, que essa estimação da demanda e o consequente fluxo de caixa estimado para os próximos anos devem ser revistos de tempos em tempos para adequá-lo à realidade da empresa e à conjuntura econômica da economia como um todo e do setor onde ela (a empresa) atua. Afinal, quanto maior a lacuna de tempo tanto maior a chance de previsão errada. Em outras palavras, quanto mais afastado no tempo a previsão (digamos, para daqui a 3 anos, por exemplo) mas complicado de se prever com grande acurácia a demanda do produto. Assim, a demanda prevista para o ano que vem tem maior probavbilidade de acerto do que a estimativa da demanda para um certo produto para daqui a 3 anos. Inúmeras coisas podem acontecer entre hoje e daqui a 1 ano que podem nos desviar do que projetamos (por isso devem os sempre acompanhar essa projeção elaborada), mas ainda assim, muito provavelmente o desvio não será tão grande assim, se ocorrer o ajuste devido, fruto do acompanhamento das vendas no dia-a-dia da empresa. No entanto, em 3 anos podem ocorrer tantas, mas tantas coisas, que a chance de se cometer um erro aumenta consideravelmente.
Como fora dito em uma das primeiras postagens aqui, neste fórum, para o analista financeiro que aplique por conta própria, existem outras variáveis que exigem menos conhecimento, menos estudos e que dão um resultado próximo para se saber se deve ou não comprar um ativo. Rwefiro-me ao método do P/L, do P/VPA, por exemplo.
Em uma próxima postagem, elaborarei melhor a montagem do fluxo de caixa, a estimação da demanda, com as técnicas apropriadas e os diferentes fluxos de caixa existentes em uma empresa. Pretendo, no futuro, falar também do porquê muitas empresas dão lucro, mas quando começam a crescer acabam quebrando e como se deve fazer uma boa gestão de sua empresa.
Abraços a todos!
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Fluxo de Caixa e sua Importância Econômico-Financeira
Muitas empresas incipientes mantém seu controle das entradas e das saídas dos recursos por meio de anotações simples, como o livro-caixa, o registro no livro diário... Mais tarde se elabora o balanço patrimonial e mesmo a demonstração do resultado do exercício. No entanto, o cuidado com o resultado financeiro da empresa não pode ser medido por esses dois balanços, ainda que muito importantes ambos, pela nossa legislação tributária. O resultado econômico, vale dizer, não reflete, na imensa maioria dos casos, o resultado financeiro.
A justificativa para isso está em duas questões a serem analisadas aqui. Uma é a diferença entre o regime de competência das receitas e das despesas e o regime de caixa das receitas e das despesas. A outra questão está, como supracitado, na legislação tributária. Então, analisemos as coisas com calma.
Primeiro, falemos dos regimes de competência e regime de caixa. O regime de competência nos diz que as receitas e as despesas devem ser registradas no momento de sua constituição. Em outras palavras, no momento em que esteja acordada a venda, ainda que a prazo, no caso das receitas, ou, no caso das despesas, no momento em que esteja constituída materialmente, por meio de uma aquisição de um serviço ou bem. Assim, ainda que a entrada do numerário só se dê no futuro, para empresa, pelo regime de competência, o registro se faz no ato.
Por outro lado, no regime de caixa, as receitas e despesas somente serão registradas quando de sua efetiva movimentação no financeiro da empresa. Assim, uma venda de um bem a prazo, só será registrada quando do recebimento dos recursos pagos pelo bem, ainda que a cessão do bem se dê hoje. O mesmo vale para as despesas: uma compra a prazo de um equipamento, com 50% de entrada e o restante a ser pago daqui a 30 dias, é registrada a despesa de 50% do montante hoje, e os outros 50% somente serão registrados daqui a 30 dias.
Dessa forma, o regime de caixa reflete melhor as entradas e saídas dos recursos, uma vez que somente quando entra o dinheiro de fato na empresa é que esta o registra. Do mesmo modo, somente quando do pagamento e, consequente, saída do dinheiro da empresa é que está o registra. Para uma empresa, o que interessa, de fato, não é a promessa de entrada de recurso, ou a perspectiva de saída do mesmo, mas a sua real entrada ou real saída. Isso porque, se uma empresa tem 30 dias para pagar a prestação de um bem adquirido pela mesma, ela pode pegar esse recurso e aplicá-lo, quer na empresa, quer em um ativo no mercado financeiro, e com isso, obter um ganho em cima dessa aplicação. Ganho esse que irá aumentar o resultado da empresa. Do mesmo modo, a empresa pode registrar a obtenção de uma receita, que não venha a si materializar, por falência do devedor. Ou ainda, tenha feito, a empresa, uma provisão para perdas maior que a devido de fato.
A legislação brasileira segue o regime de competência, uma vez que o mesmo é obrigatório, segundo a legislação do Imposto de Renda. Não obstante, o resultado financeiro só é obtido de forma válida quando se leva em conta o regime de caixa, uma vez que esse registra as reais entradas e saídas de recursos.
Uma outra coisa a se salientar, e aqui vamos para o segundo ponto, é a forma como é elaborado o lucro líquido. Essa forma, seguida pela Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) é determinada pela legislação do Imposto de Renda. Não visa o lucro líquido de um período, uma vez que a empresa registra como lucro líquido receitas que ainda não se realizaram. Ainda que se provisione para devedores duvidosos, o mesmo pode ser maior ou menor que o lucro de fato. Além do fato de a despesa contar valores que não necessariamente foram pagos no período correspondente, isso porque a promessa de pagamento pode estar acertada para uma data do próximo período.
Ademais, uma empresa pode realizar lucro ao fim do período, pela Demonstração do Resultado do Exercício e estar em situação de insolvência. A justificativa para uma situação dessa está baseada no fato de que uma empresa pode ter contraído negociações tais ao longo do período que as receitas foram em boa parte obtidas a prazo, por meio, digamos, de crediário ou de recebimento de duplicatas. Não obstante, as despesas, em sua grande maioria, foram pagas a vista. Nesse caso, se as receitas forem consideráveis, a empresa pode registrar um lucro líquido ao fim do período. No entanto, o resultado de caixa pode ser negativo. Isso porque parte das receitas ainda será recebidas, enquanto as despesas são pagas, como dito, em boa parte, no ato. A consequência, é a redução no caixa da empresa, ou, pelo menos, um grande risco para a mesma. Uma estratégia de política comercial sem dúvida arriscada.
Com esse pensamentos, penso ter deixado claro a importância de se realizar e analisar a forma como ocorrem os fluxos de entradas e saídas de caixa da empresa. Uma outra coisa que vale a pena realçar, é que apesar de os fluxos de caixa serem importantes, existe uma diferença entre o fluxo de caixa contábil e o fluxo de caixa econômico.
O fluxo de caixa contábil está substanciado na Demonstração do Fluxo de Caixa (DFC), que pode ser obtido pelo método direto ou indireto, os quais não falaremos aqui dada a limitação de espaço. Seu resultado final é retratado pelo quanto de Disponível possui a empresa ao fim do período em análise. Do mesmo modo, revela como variou entre o início do período e seu término. Sem dúvida, essas informações são de grande relevância, tanto para a empresa quanto para quem a analisar.
No entanto, se queremos analisar as estratégias da empresa, devemos nos focar no fluxo de caixa, sob o aspecto econômico. Em outras palavras, devemos nos ater aos custos variáveis, aos custos fixos, o preço dos insumos, como está o mercado de insumos para a empresa em questão, qual a capacidade produtiva da empresa, quanto ela usa dessa capacidade produtiva, qual o preço médio de seu produto. Em suma, temos que detalhar os aspectos reais de mercado sobre as receitas e despesas da empresa. Do mesmo modo, em um segundo passo, temos que nos ater as capacidades futuras da empresa e suas possibilidades estratégicas para expandir-se, tomar mercado das demais, entre outras informações. Com base nesse fluxo de caixa, a empresa saberá como está sua variação de caixa, seu real potencial e quais estratégis de decisão tomar para o futuro.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Como Calcular o P/L
| Tabela 1: Lucro Líquido da Petrobrás por trimestre |
| 30/09/10 | 30/06/10 | 31/03/10 | 31/12/09 | 30/09/09 | |
| Lucro Líquido | 8.566.452.224 | 8.294.989.824 | 7.726.274.048 | 8.128.872.448 | 7.302.567.936 |
terça-feira, 16 de novembro de 2010
As Empresas Estatais Foram vendidas Baratas?
O preço que se vai pagar por qualquer empreendimento não deve estar baseado no capital social da empresa, ou mesmo no seu patrimônio líquido, como alguns argumentam. Tanto o capital social quanto o patrimônio líquido indicam o que a empresa conquistou, o quanto de capital societário ela possui ou o quanto ela possui de patrimônio próprio, respectivamente. No entanto, para quem compra uma empresa o que importa é o potencial de geração de caixa futuro, que será dado pelo fluxo de caixa advindo dos próximos períodos até a maturação do investimento realizado; onde não mais se pode realizar novos lucros sem que se faça novos investimentos. É a geração do fluxo de caixa que importará, uma vez que é esse que entrará de fato de ganho para quem adquiriu o novo negócio. Os ganhos realizados no passado remuneraram quem administrava a empresa no passado. Para quem a compra hoje, o que importa é o ganho futuro.
Ah, mas e o patrimônio comprado? Ele não tem valor? Sim, tem. No entanto, serve apenas como estoque de maquinário. Quando se quer saber qual o valor de mercado de uma empresa cotada em bolsa, o que se faz é multiplicar o preço da ação pelo número de ações existentes. Pega-se o preço da ação porque, em tese, este representa a expectativa dos dividendos futuros descontados ao longo do tempo pela taxa de desconto apropriada. Se isso vale para uma empresa privada, o mesmo é válido para uma empresa pública, como o é para qualquer outro empreendimento. O cálculo reflete os dividendos futuros porque mais cedo ou mais tarde o lucro obtido hoje será repassado para seus acionistas. Mesmo o lucro retido será, um dia, repassado ao acionista por meio de dividendo ou de aumento de preço (o que refletirá o ganho de capital obtido). (Vale realçar, a essa altura, que um bom gestor é aquele em que o lucro só é retido enquanto a empresa tiver taxas de expansão superiores àquelas que um acionistas poderia obter aplicando o valor obtido com o recebimento dos dividendos.)
Na verdade, o desconto do fluxo de caixa futuro da empresa, ao longo do tempo, por uma taxa de desconto apropriada reflete o tão decantado Valor Presente Líquido (VPL). Uma técnica muito conhecida entre os economistas, os administradores, os contabilistas, os engenheiros econômicos, entre outros. A própria técnica de se calcular o preço justo de uma ação é elaborada com base na técnica de VPL, como já o expliquei em uma outra postagem aqui, quando falei na técnica de valuation.
Desta forma, o primeiro dilema para se saber se as empresas estatais foram vendidas baratas está inserido na forma como o preço justo de um ativo, no caso, de uma empresa deve ser feito. Não pelo total do patrimônio líquido ou o total do capital social, e sim pelo desconto, à taxa de desconto apropriada, do fluxo de caixa futuro.
O segundo ponto a se ressaltar tem a ver com a condição pela qual o país passava quando houve o auge das privatizações. Como o disse em outra postagem, as privatizações foram muito importantes durante uma época em nosso país porque os recursos das privatizações foram usados para cobrir o déficit fiscal de dado ano, em uma época em que não produzíamos superávits primários (leia o texto sobre a política fiscal onde explico como se calcula o superávit primário e a importância deste para a economia). Assim, uma vez que os agentes saibam que o governo precisa do dinheiro das privatizações para cobrir parte do déficit público existente. Déficit público este que a essa época girava em torno dos 7 a 8% do PIB ao ano, em média. E, além disso, sabendo os agentes dispostos a comprar essas empresas estatais que o governo teria que pagar taxas de juros mais altas se não houvesse o dinheiro provindo das privatizações, esses regateavam o quanto lhes era possível.
Primeiro, os próprios recursos para pagar pelos leilões de privatizações não raro advinha do próprio BNDES, com crédito financiado pela taxa de juros de longo prazo (TJLP), uma taxa de juros mais barata frente às existentes no mercado. Segundo, davam lances inferiores àqueles esperados pelo governo; sendo a venda dessas empresas públicas vendidas pelo preço mínimo ou por um preço próximo ao mínimo exigido.
Não é questão de se o governo acertou ou errou. A questão é que o governo não tinha dinheiro para fazer novos investimentos para melhorar o maquinário e a tecnologia das empresas públicas. Do mesmo modo, alguns setores estavam muito defasados tecnologicamente e eram estratégicos que novos investimentos fossem feitos, como o caso do setor de telecomunicações. O grande entrave foi o desajuste das contas públicas à época, conhecidos por todos. O que resultou em necessidade por parte do governo. Ora, se vocêe sabe que alguém passa necessidade financeira e precisa de capital. Você tem o capital e é um empresário. Por que você vai pagar o preço justo dado pelo desconto do fluxo de caixa, ou seja, a técnica do VPL, se você pode regatear e pagar menos no leilão - até porque você sabe que os outros também pensarão assim, como você está pensando? Daí que era natural que alguns setores fossem vendidos por um preço inferior ao preço adequado. Ainda assim, como dito antes, o preço justo não é o preço registrado no capital social nem tampouco no patrimônio líquido, e isso é importante para que não se crie confusões. confusões essas muito comuns entre os estudantes e os iniciantes no assunto.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
A Bolha da Enganação
A visão que tenho: quer como economista, quer como professor, quer como operador no mercado, não está balizada com a de outros pares. Ainda que respeite os colegas, tenho uma visão diferente. Há uma grande liquidez internacional. Liquidez essa que se deve, em parte, a forte expansão fiscal realizada no ano passado na Europa e nos Estados unidos, e, em parte, a falta de alternativas para investimentos rentáveis em um mundo de taxas de juros tão baixas.
Após a Segunda Guerra Mundial, o pensamento hegemônico na economia defendia a tese de que a política monetária era inócua, de tal forma que se podia prescindir da mesma. Portanto, vivia-se em um mundo de taxas de juros próximas a zero: estávamos no auge da era Keynesiana. Já na década de 1960 começam as críticas dos monetaristas, precipuamente seu expoente maior, Milton Friedman.
Durante um bom tempo o mundo cresceu a taxas elevadas com essa política de política fiscal ativa combinada com reconstrução da Europa e do Japão (viabilizada pela forte demanda por bens norte-americanos) com uma política monetária frouxa. No entanto, quando a Europa e o Japão começaram a se recuperar, manter o forte crescimento norte-americano já não era tão fácil. A consequência dessa política foi o aumento excessivo de dólares no mundo. Não houve escolha, em 1971 os norte-americanos abandonaram o padrão ouro, passamos a viver no câmbio flutuante. Isso pelo menos para as grandes economias do mundo. As pequenas economias ainda viveram no câmbio fixo durante mais tempo, era uma forma desses governos fazerem política industrial por meio da manipulação da cotação cambial.
As principais economias do mundo passavam por recessão na década de 1970, de forma a se coordenarem aos novos custos industrias, fruto do aumento do preço do barril de petróleo. Com o aumento da liquidez internacional, fruto da expansão dos dólares, esses acabaram por aportar em países de economia pequena, mas em desenvolvimento. (Não se esqueçam, os petrodólares que eram apenas a drenagem dos dólares em excesso no mundo, pelos petroleiros.) A consequência que adveio para esses países foi a defasagem cambial (que fez com que acumulassem saldos negativos no balanço de pagamentos) e elevação de preços interna (a vulga, inflação).
Isso não significa que não possa haver uma bolha, mas não creio que essa esteja em processo. O que deve ocorrer no Brasil, falando especificamente de Brasil, é um rearranjo nos múltiplos dos ativos no mercado de capitais e uma elevação de preços internamente. Assim a política de taxas de juros altas voltará às bandas tupiniquins.
Deixa eu explicar melhor o impacto sobre os ativos cotados na Bovespa. Quando calculamos se devemos comprar ou não um ativo, baseamos nossa análise no índice P/L, basicamente, ele é tudo: de um Armínio Fraga, até o mais incompetente operador, todos calculamos o P/L. Isso não quer dizer que não se use Análise Técnica, apenas que um bom analista entende a limitação dessa, o que não quer dizer que não a use. Bom, se trabalha, dependendo do setor, com P/L em torno dos 14 a 15, no Brasil (há um diferencial entre as ações mais líquidas e as menos líquidas, outra hora escrevo sobre isso melhor). A questão é que o país tem excelentes perspectivas para um crescimento estável nos próximos anos. É verdade que passaremos a importar mais e que o câmbio, com a forte entrada de recursos e especulação no DOLCOM futuro, continuará a ser um problema; facilitando a que muitos produtos estrangeiros aportem aqui (o que dificultará alguns setores da economia). Dessa forma, haverá um forte aporte de capitais aqui.
O capital que faz o preço de um ativo subir muito na bolsa de valores não monta uma bolha. O que ele faz, se for o caso, é alterar seus múltiplos. No entanto, e aí sim é importante frisar, é se o aumento dos múltiplos se dá fruto de forte expectativa futura para aquela empresa. Se tal, uma hora os múltiplos vão regredir a sua base histórica. Essa regressão pode se dá pela realização dos lucros futuros. Ou seja, por lucros líquidos cada vez mais e mais elevados que façam com que o lucro por ação fique cada vez maior e, assim, reduza a relação P/L, onde L é o lucro líquido anual dividido pelo número total de ações. Ou, se isso não ocorrer, pela queda forte no preço de cotação para o ativo, quando parte grande do público perceber que o ativo está esticado por deveras e que não irá realizar o lucro estimado pelo P/L. Como esse último caso está longe de ocorrer e, ainda, levando-se em conta que pequenos ajustes a bolsa sempre o faz. Não creio que estejamos formando bolha. O que existe é muita liquidez com poucas alternativas realmente boas de negócios. Vou ser mais direto, acredito que o dólar (como já afirmara entre amigos desde 2009) que o dólar fecha ano que vem em torno de 1,50, ainda que o governo lute contra, e que a bolsa termina 2011 entre 120 e 130 mil pontos base.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
VIVO4
Bom, falemos um pouco da VIVO4, minha nova aposta na Bovespa. Eu procuro sempre ativos que possam dar um retorno seguro. A mesma teve um lucro líquido no trimestre de cerca de 602 milhões. Como o 3º trimestre do ano passado registrou lucro líquido de cerca de 304 milhões, houve, portanto, um aumento no lucro por ação da companhia.
Da mesma forma, se pegarmos o lucro por ação da VIVO4 antes de sair o resultado desse 3º trimestre de 2010 e levarmos em conta o preço de 46 reais, em que era cotada a ação antes da alavancagem pela qual passou ao longo do mês de outubro, veremos que o P/L estava em 18,63. O P/L hoje, com o resultado divulgado há pouco, é de 16,40. Ou seja, ainda que o mercado tenha precificado parte do lucro ao longo do mês de outubro, ainda assim há um espaço para ganho de cerca de 14%.
Ademais, a empresa aumentou seu market-share e melhorou seu Ebitda e sua receita líquida. O que demonstra consistência no resultado. Creio que a empresa seja um bom investimento para as próximas semanas. Lembrando sempre que a cotação dos ativos é muito influenciada pelo humor do mercado. O que, no caso de uma perspectiva negativa, dificultará a realização de forma tão rápida.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
O Que é a Nossa Sociedade de Consumo?
Bom, vocês devem notar que a vida útil dos bens duráveis hoje é menor do que já foi um dia. Assim, uma máquina de lavar de 1970 durava mais do que dura hoje uma máquina de lavar vendida nos tempos atuais. Da mesma forma, a vida útil de um carro ano 1960 era superior do que a vida útil de um carro ano 1988, por exemplo. Até o estado de conservação é outro, dado que se necessita fazer menos manutenção.
O que ocorre é que a fabricação dos produtos atuais é feita para durar menos, como forma de forçar a necessidade de que as pessoas sempre precisem adquirir tal produto. Como se sabe, de tempos em tempos, devido a deterioração dos bens duráveis, como máquina de lavar, geladeira, fogão, TV, carro, entre outros, é necessário comprar novos para repor aqueles que já estão com a qualidade comprometida devido ao desgaste. Assim, reduzindo o tempo de vida útil, forçasse a busca por novos produtos. Como consequência, dinamizasse a produção e mantém as empresas constantemente operando. Por isso o tempo de vida útil desses equipamentos domiciliares fora reduzido: é uma forma de manter a demanda pelo produto em patamar que mantenha uma produção elevada.
A outra característica presente na nossa sociedade atual, dita de consumo, advém das aceleradas alterações tecnológicas. As pessoas só consomem um bem por dois motivos: ou porque querem adquirir algo novo ou porque precisam repor o que fora desgastado devido ao uso ao longo do tempo. Reduzir o tempo de vida útil de um produto faz com que haja uma demanda constante pelo produto. No entanto, a cada ano, uma pequena parcela de toda a demanda é reposta. Dessa forma, é através da novidade, do novo, que as empresas conseguem levantar grandes ganhos, por isso a corrida tecnológica em determinados setores.
Assim, essas são as duas bases em que se mantém a sociedade de consumo: redução do tempo de vida útil dos bens duráveis e veloz avanço tecnológico. Mas o veloz avanço da alteração tecnológica merece um olhar mais acurado de nossa parte. Esse se realiza na mente dos indíviduos por dois caminhos. Primeiro, a propaganda incute no indivíduo a necessidade de ter o produto, que muitas das vezes é supérfluo em sua vida. Mas, devido à propaganda e, ao consequente efeito que a propaganda o faz, o indivíduo crê que precisa do produto. O segundo caminho é um aspecto meramente da nossa coletividade. Se você possui um celular que serve para ligar e passar mensagens, você é visto como um "pobre" por não ter um "BlackBerry" ou um "IPhone", por exemplo. Da mesma forma, que se você comprar uma camisa do seu time de futebol e, dois meses depois, seu time trocar o uniforme, você mesmo vai começar a achar que sua camisa é velha. Ou então, quando você for a um estádio, vai ter a impressão que todos estão achando que sua camisa é velha e ultrapassada. Isso porque você tenha comprado a camisa há dois meses.
As empresas, muitas vezes, colocam produtos novos no mercado, que não trazem em si grandes alterações tecnológicas, apenas deixam a sensação de que algo é novo e o que você possui é velho. O que cria nas pessoas, pelo menos grande parcela delas, a sensação de que precisam ir às compras de novo. Para tanto, é necessário uma sociedade que se sinta carente, frágil e que, tal qual uma criança mimada, precise a todo instante, ver seus desejos supridos. Uma sociedade assim, pensa pouco e reage com alguma violência ao ser contrariada.
Se questiona muito sobre a perda de valores dos jovens. No entanto, eles são frutos do sistema atual que se renova em grande velocidade, precisando de uma massa de consumidores que não reflita sobre as bases de nossa sociedade. Muitas das características que vislumbramos hodiernamente em nossa sociedade advém desse sitema.
Quebrar o sistema, alterá-lo para tornar cidadãos mais conscientes, mais pensadores e menos manipulados por seus impulsos, falsamente criados? Acho difícil e pouco crível. A manutenção dos empregos da forma que se dá hoje, se baseia muito nesse sistema. Se o tempo de vida útil fosse maior e/ou as mudanças tecnológicas (ou, em muitos casos, mera mudança de "embalagem", no caso de alguns produtos) o que ocorreria é que seria necessário produzir menos para repor o que foi desgastado. Além disso, as pessoas só comprariam quando fosse realmente necessário. Com isso, ao produzir menos, e tendo um consumidor consciente, pouco manipulável, as empresas produziriam menos e, portanto, precisariam de menos trabalhadores. Aumentando assim a massa dos desempregados, o que teria fortes repercussões sociais. Assim, em suma, precisamos de uma sociedade fraca, carente e alienada para manter a economia em crescimento.
Talvez você esteja se perguntando o que esse tema tem a ver com o mundo dos mercados financeiros. Diria que tudo. Entender o mundo em que vivemos, a base em que ele está construído, seus valores e idiossincrasias, ajudam-nos a entender as pespectivas dos diferentes setores da economia e a dinâmica de cada setor, em cada momento. Mercado financeiro não é só formado por relações econômicas, mas também pelo estudo sociológico dos diferentes grupos (principalmente se é possível saber qual o público-alvo de uma dada empresa), do conhecimento da psicologia social, do raciocínio abstrato advindo da filosofia, entre outros conhecimentos.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Privatização: Porque o Processo parou nos Últimos Anos
Nas duas últimas eleições tem sido assim: chega época de eleição e o PT adota o "terrorismo" político de que se o PSDB ganhar as eleições presidenciais irão voltar as privatizações. Do mesmo modo a incapacidade dos candidatos a presidência, pelo PSDB, não deixa claro se vão ou não privatizar.
A função do governo é primordial em determinados setores como a segurança nacional e pública, o poder de polícia ao fiscalizar os diferentes processos de produção, quanto aos aspectos sanitários dos mesmos, peso adequado, entre outros, da mesma forma que também é importante no processo de resolução da liades. Outrossim, existem bens, ditos meritórios, saúde e educação, que por trazerem benefícios a sociedade cabe ao Estado oferecê-los à sociedade.
Mas, e bens industriais, típicos das relações de mercado, como produção e distribuição de energia elétrica, fornecimento de gás, pré-sal e outros mais? Há setores que tendem a uma estrutura de mercado monopolizada: ou porque o mercado é pequeno, ou porque os custos são elevados e impeditivos para outras empresas adentrarem o setor.
No Brasil, o fato de o governo federal e os governos estaduais criaram empresas porque perceberam que os altos custos de certos setores, importantes para o desenvolvimento da indústria nacional, ainda incipiente àquela época, o forçaram a isso. O motivo se baseou no dimensionamento do mercado, dada a restrita demanda, fruto do baixo poder aquisitivo da população à época. Outro motivo era os elevados custos iniciais frente ao seu payback (tempo necessário para recuperar o capital inicial investido, sem levar em conta o custo do dinheiro ao longo do tempo).
Com o tempo, fruto do aperto fiscal pelo qual o país passou nos fins dos anos 1970 e ao longo da década de 1980, foi ficando difícil para os governos federal e estaduais (esses ainda se utilizaram dos recursos de suas instituições bancárias estaduais para continuar investindo em suas empresas estatais estaduais até o advento do Plano Real e o fim das taxas elevadas de inflação no país) investirem em suas, respectivas empresas. Muitas empresas, conseqüentemente, ficaram defasadas em seus equipamentos e tecnologia existente. Portanto, isso acabou se refletindo na produtividade dessas empresas, que passaram a ser ineficientes dado o serviço que prestavam à população.
O processo de privatização veio como uma forma de essas empresas se recapitalizarem e obterem recursos para novos investimentos. Como tal, nos setores de maior importância para a sociedade, o governo saiu da parte executiva, para a regulatória: assim foram criadas as agências reguladoras. Durante o processo de privatização, no Brasil, as receitas oriundas da privatização serviram para abater déficits fiscais em cursos em dado ano.
Ao longo do período de inflação aberta, onde o Brasil possuía taxas de inflação elevadas, as contas fiscais eram ajustadas, ao longo do governo de Fernando Collor e do governo de Itamar Franco, por meio do encurtamento do período de arrecadação dos impostos. Além disso, os ministros da Fazenda aprenderam a não negar nenhuma despesa requerida, apenas iam adiando o gasto da mesma o quanto possível, de forma a que a inflação corroesse as rubricas de despesa e, assim, ajusta-se o orçamento público, de forma a manter as contas entre despesas e receitas equilibradas.
Com o fim da inflação no Brasil, pelo menos o fim de taxas elevadas ao mês (tivemos inflação de 33% no primeiro ano do Real), já não era mais possível usar esse processo para o ajuste das contas públicas. Logo, ainda antes da entrada em vigor do Plano Real o governo tenha elaborado um Fundo Social de Emergência, que nada mais era do que a desvinculação das receitas orçamentárias. Ou seja, foi uma forma encontrada pelo governo de ter flexibilidade no orçamento, dado que após a Constituição de 1988 o governo passou a ter parte significante de suas receitas atreladas a gastos ou transferências específicas. Ainda assim, não foi suficiente para ajustar as contas do governo, que passou a ter um elevado déficit nominal (fiscal).
Assim, as privatizações serviram para suprir parte do déficit fiscal existente no período. Em outras palavras, como eram calculados após o cálculo das necessidades de financiamento do setor público (NFSP), os recursos oriundos da privatização serviam para abater esses gastos. Dessa forma, sem os recursos das privatizações o déficit fiscal seria maior ainda. Logo, maior seria o montante do endividamento público também.
O processo de privatização, que no início servia para trazer novos investimentos para determinadas empresas e, assim, recapitalizar as mesmas e melhorar sua eficiência produtiva, acabou ganhando novo corpo com a necessidade de se gerar saldos para evitar que a dívida pública crescesse desmensuradamente, em um momento em que as contas públicas ainda se ajustavam. Ao longo do tempo, as contas públicas se ajustaram pelo aumento da carga tributária e depois, já no governo Lula, pela retomada do crescimento econômico. Daí que hoje, as receitas oriundas das privatizações já não são vitais para o ajuste das contas públicas nacionais.
Ficam questões a serem resolvidas em outras postagens. Por que se argumenta que as empresas estatais brasileiras foram vendidas abaixo de seu valor de mercado, isso é verdade? Por que eu afirmo que o processo de o governo reestatizar ou mesmo construir empresas estatais é anacrônico? E o que está por trás desse processo de se construir empresas economicamente falando? ( São coisas a se responder em outras postagens, em breve).
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Aluguel de Ações
Quando o número de aluguéis aumenta, significa que as intituições financeiras (que são as que mais operam descoberto, ou seja, as que mais alugam ações para a venderem posteriormente) estão apostando na baixa daquela ação. Ou seja, elas alugam a ação, vendem-na no mercado, esperando o preço cair e a recompram de novo, devolvendo a quem pegaram emprestado. O ganho na operação para aquele que pegou a ação a descoberto, por meio do aluguel de ações, se dá pelo diferencial. Ele vendeu a ação na alta e, como o preço foi baixando ao longo do tempo, ele a recomprou na baixa, no momento em que considerou o preço da ação baixo o suficiente para realizar seu ganho na operação
.
Assim, se o número de pedidos de uma determinada ação aumenta em dado momento, significa que as instituições financeiras estão apostando na queda do ativo para os próximos pregões. Se o número de aluguéis diminui, ocorre o oposto, ou seja, o mercado está apostando que o ativo já caiu o necessário e dali em diante a tendência é subir; então as instituições financeiras, que como disse antes, são as que em maior parte vendem a descoberto, por meio do aluguel de ações, começam a recomprar a ação, vendo que não há muito espaço para novas quedas. No entanto, se houver muitas posição de aluguéis de ações em aberto, é possível que o ativo demore a subir, enquanto outros no mercado demorarem a perceber a mudança na tendência, de baixista para altista.
Essa é uma forma de se saber se as principais instituições do mercado estão apostando em uma alta ou em uma baixa, para um dado ativo (ação). Mesmo assim, vale ressaltar: ao se fazer essa análise, sobre os pedidos de aluguéis de ação, que o indivíduo deve levar em conta as notícias do setor, as notícias do cenário econômico nacional e internacional, ter consciência da dinâmica dos múltiplos P/L e P/VPA, analisar também os indicadores técnicos como o IFR, o estocástico, o MACD, em suma, buscar outras informações que deem a ele a segurança de que sua análise está correta e bem centrada.
Em suma, é um conjunto de informações que vão nos dar a segurança de que aquele é mesmo o ativo a se abrir uma posição e se a tendência para o mesmo é de baixa ou de alta. Assim, o número de pedidos de aluguel de ações é apenas mais uma informação, entre tantas, a serem checadas antes de se abrir um posição em uma ação. No Brasil. um bom site para se checar a dinâmica para uma ação ao longo dos últimos pregões é dada em http://www.dadosdabolsa.com/
Abraços a todos e bons negócios, qualquer dúvida é só perguntar!
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Explicando o Porquê a GOAU4 Não Cresce
Bom, o número de pedidos de aluguéis da GOAU4 era de cerca de 1 milhão e 400 mil em 13 de setembro, em 21 de outubro estava em cerca de 47 mil. Coincidentemente, o ativo estava cotado a 30,22 em 13 de setembro, fechando ontem a 24,50. Nesses 27 pregões, a ação caiu em 18 dos pregões e ficou em um estável, subindo só em 8 pregões, sendo que em 6 desses o aumento não foi superior a 0,62%. Assim, a forte desova nos pedidos de aluguel da GOAU4 sustentaram a queda do ativo ao longo das últimas semanas.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Elevação da taxa de Juros Básica na China em 0,25%
A questão é que o aumento na taxa de juros básica da economia significa que menos dinheiro estará em circulação, uma vez que o banco central chinês passará a vender títulos públicos, reduzindo assim o preço desses, que passarão a ser vendidos com deságio, e, portanto, elevando a taxa de juros no país. (Como aumentará a quantidade de vendas de títulos públicos, pela lei da oferta e da procura, o preço dos títulos irá cair, portanto, será vendido com deságio.) Quando o banco central vende títulos públicos, ele enxuga a liquidez da economia, uma vez que há menos dinheiro em circulação. Dessa forma, para uma mesma produção, o poder de compra das pessoas, no agregado, diminui. (Com uma menor quantidade de dinheiro em circulação, o custo do uso do dinheiro, que é dado pela taxa de juros, sobe, uma vez que o dinheiro se torna mais raro.) Assim, há um desaquecimento na economia, que desacelerará as taxas de crescimento.
Portanto, a consequência do aumento nas taxas de juros será uma redução do meio circulante na economia. O problema é que como o câmbio é fixo, o banco central chinês se vê obrigado a trocar dólares por yuan sempre que alguém o desejar. E com taxas de juros mais elevadas, torna mais atraente ao investidor externo, com capitais ociosos, investir na China. Agora não mais comprando muitas ações de empresas, mas direcionando um volume maior para a compra de títulos públicos do governo chinês, que estarão sendo vendidos com deságios e, portanto, com taxas de retornos mais elevadas.
FESA4
Além disso, houve uma redução de 23% nos pedidos de aluguel de ações para o ativo entre os pregões que vão de 6 a 19 de outubro. O que diminui a força daqueles que apostam na queda do ativo.
Motivos que Levam a Comprar um Ativo: o caso da MMXM3
O ativo teve um bom crescimento durante 3 pregões antes do de ontem, valorizando cerca de 8%. É um bom crescimento e dói estar fora de um ganho como esse. Nas últimas semanas o Ibovespa subiu de cerca de 64 mil pontos para algo em torno de 72 mil pontos. Naturalmente, muitas açãoes se valorizaram. Em um mercado com tendência de alta, as ações tendem a ter patamares positivos. Por outro lado, um mercado com tendência de baixa puxa todas as ações para o terreno negativo. Como o Ibovespa se esticou muito em pouco tempo, é esperado que os investidores queiram realizar os seus devidos ganhos, para um novo fôlego de crescimento.
Estamos sempre sofrendo com as oscilações de mercado, fruto do noticiário que pipoca dia após dia. Dessa forma, quanto mais curto o prazo que se espera realizar uma operação, tanto mais vítima das notícias estará as ações a serem influenciadas. Portanto, se você pretende investir em uma operação que vá durar pouco tempo, o melhor a se fazer é investir em ativos sólidos. Em outras palavras, investir em ativos com bom potencial de valorização. Para tanto, duas características são importantes: 1) que a empresa cujo ativo você pretenda comprar tenha uma boa gestão financeira e econômica; 2) que o ativo tenha potencial para obter novas valorizações. Para saber se um ativo tem potencial para valorização, duas questões são relevantes: 1º) o ativo estará barato frente a seus indicadores financeiros, como o P/L e o P/VPA? 2º) o ativo teve um grande crescimento nos últimos pregões?
Se o ativo tem um P/L e/ou um P/VPA, comparado a outros ativos do setor em que atua, caro, então, não vale a pena comprá-lo. Isso porque o risco de obter uma valorização nos próximos pregões é menor, uma vez que os investidores tendem a tirar seus recursos de ativos que estejam mais caros (com P/L e/ou P/VPA mais barato dentro de um dado setor da economia) e colocar em ativos que estejam mais baratos, ou, ainda, com potencial de lucros futuros que tornem seu P/L e/ou P/VPA baratos no futuro.
Ainda que um ativo esteja barato, ou tenha potencial de ficar barato, dada a perspectiva de lucros vindouros; vale dizer, ainda que seu P/L atual e/ou seu P/VPA atual esteja barato, ou se projete, dada a expectativa sobre os lucros futuros que fiquem baratos, se esse ativo teve grande alavancagem nos últimos pregões, o espaço para novos crescimentos fica menor. Assim, uma ação que esteja com um P/L muito baixo dentro do setor e que a perspectivas de lucros sejam crescentes para os próximos períodos, mesmo sendo um ótimo negócio, pode sofrer quedas fortes de tempos em tempos. Isso ocorre por dois motivos. Primeiro porque os investidores vão querer realizar seus lucros e vão começar a achar que a qualquer hora os outros investidores sairão do ativo, assim o medo de ser o último a sair faz com que qualquer coisa seja motivo para realizar o ativo e garantir sua realização, até o ativo cair de novo, para uma posterior reentrada.
O outro motivo é que notícias adversas que criem expectativas futuras negativas na economia, como saiu ontem a notícia de que a taxa de juros da China fora elevada (o que cria a expectativa de desaquecimento na economia chinesa e, assim, menos compras de "commodities"; portanto, afetando as expectativas das empresas brasileiras), acabam por criar um cenário baixista que afeta todas as ações, sobrando pouquíssimas que possam resistir.
Em suma, um bom investimento em ações é aquele que está calgado em algumas premissas. Primeiro, a empresa é bem gerida, dado seus indicadores financeiros de liquidez, rentabilidade, margens de lucro, entre outros. Segundo, o ativo está barato, dado seu P/L e seu P/VPA, frente a outros do mesmo setor de atuação. Terceiro, os indicadores técnicos, as notícias sobre a economia, sobre o setor em que a empresa atua e sobre a empresa em particula, somado aos pedidos de aluguel de ações indicam que as pessoas estão apostando ou em uma compra para o ativo ou, caso contrário, estão apostando em uma venda.
Assim, com base nesses fatores, se faz uma boa análise. Segura e com menor chance de erro. Todas os momentos em que me desviei desse foco, errei em minha análise, ou a tomei com menos segurança.
Com base nisso, analiso a empresa MMXM3.
O número de pedidos de aluguéis pouco oscilou nos últimos pregões. Não mostrando, portanto, uma tendência forte de compra nem de venda para o ativo. Seus lucros, apesar do ótimo resultado na operação da receita do último trimestre, continua negativo. Seus fundamentos são fracos. A notícia de aumento na taxa de juros chinesa, afeta o setor de mineração, dado que se espera uma menor demanda mundial por minérios de ferro (ainda que o impacto possa ainda não ser de tão grande proporções). Muitas instituições financeiras indicam a MMXM3 com boa perspectiva de crescimento para seu preço de cotação.
O que vejo no mercado, hoje, são algumas empresas do setor de construção civil e do setor bancário (principalmente essas, mas existem outras em outros setores da economia) que estão muito baratas em termos de P/L e P/VPA (principalmente P/L). Ainda mais se levarmos em conta as expectativas de lucros para os próximos trimestres, mormente os lucros a serem divulgados em breve para o 3º trimestre de 2010. Em vista disso, vou me isentar de dar opinião a respeito da MMXM3, uma vez que eu não entraria nesse ativo. E isso não é porque o ativo não possa se valorizar nos próximos pregões. Mas simplesmente porque não vejo nele base sólida que me convença a comprá-lo segundo os fundamentos que ele possui. Vejo que existem ativos com melhores fundamentos e com melhores perspectivas, além de baratos. Mas comprar ou não é uma decisão particular de cada um. A análise feita acima, sobre os motivos que devem basear uma boa análise, são os que sigo quando recomendo um ativo e/ou abro posição no mesmo. Dessa forma, uma vez que não vejo base para uma recomendação, segundo os pressupostos que uso em minha análise, não tenho como recomendar esse ativo. O que não significa que o mesmo não possa obter excelentes valorizações nos próximos pregões. Apenas que não estaria seguro de tal fato, baseado nos pressupostos que uso em minha análise.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
A Importância da Dívida Pública sobre a Dinâmica do Mercado Acionário
Muitos do que investem no mercado acionário por meio de um home broker não dão importância à dinâmica do gerenciamento da dívida pública federal. No entanto, a forma como a dívida pública é gerenciada é de vital importância para o bom desempenho do mercado acionário. A justificativa para isso se baseia em alguns argumentos. O primeiro deles é que o aumento do endividamento público, por meio do aumento do déficit público, por exemplo, retira do mercado acionário recursos que passam a ser investidos na compra de títulos públicos. Outro motivo, é que se o endividamento público é elevado, é natural que em algum momento o mercado passe a exigir maiores taxas de retorno para comprarem esses títulos, uma vez que com um endividamento público crescente fica mais e mais arriscado comprar esses títulos. Logo, com taxas de juros mais atraentes para os títulos públicos, e dado que esses são menos arriscados do que os investimentos no mercado acionário, menos recursos são transitados na bolsa de valores. Portanto, menor o dinamismo da mesma.
Dessa forma, passa-se a estudar o processo que gera o aumento ou a redução da dívida pública e as repercussões sobre a dinâmica das empresas e a repercussão sobre o preço das ações. Para entender como a dívida pública varia ao longo do tempo é necessário começar primeiro estudando alguns componentes do orçamento público, como o superávit primário. Mas o que é o tal superávit primário? Bom, o superávit primário é a diferença entre o que o governo arrecadou de recursos da mais diferentes formas (recebimento de aluguéis de imóveis, receitas de impostos, receitas de contribuições e assim por diante) e os gastos que o governo teve nesse período. Assim, se a receita em dado período for maior do que a despesa, existe um superávit; se a despesa for maior do que a receita, tem-se um déficit. O termo primário advém do fato de que é o primeiro resultado do orçamento. Em outras palavras, não leva em conta o pagamento dos juros da dívida passada. Dessa forma, ainda que se tenha um superávit primário de 4% PIB (Produto Interno Bruto), por exemplo, se a despesa com os juros da dívida passada for de 7% do PIB, o saldo final do orçamento público nesse período será de déficit de 3% do PIB.
O governo, para financiar esse déficit, terá duas opções: ou emitirá moeda para pagar as contas que ainda não foram pagas ou emitirá títulos públicos. Se emitir moeda para pagar as contas que ainda não foram pagas, o que acontecerá é que haverá um aumento na quantidade de moeda em circulação sem que está esteja baseada no crescimento da produção, mais simplesmente porque o governo gastou mais do que arrecadou. E gastou mais do que arrecadou porque o saldo das receitas e das despesas nesse período não foi suficiente para pagar os juros da dívida contraída no passado. Assim, com mais moeda em circulação do que a produção dá conta o que ocorrerá é um aumento no nível de preço. Esse aumento do nível de preços se não for controlado poderá ser o estopim para um aumento da inflação.
Dessa forma, se o país está compromissado com o controle da inflação, a melhor solução que o governo tem é lançar títulos públicos no mercado. Mais como se faz isso? Quando o governo lança títulos públicos ele está trocando a promessa de pagar de tempos em tempos um percentual sobre esses títulos (por exemplo, 5% sobre o valor de face do título pagos semestralmente, durante 3 anos) e o devolver o valor pego em empréstimo ao final do período de duração desse título. Assim, ele obtém dinheiro para pagar as contas que ficaram pendentes.
Mas quem me garante que esse processo de lançamento de títulos públicos no mercado não é também inflacionário? Bom, a impressão de moeda para pagar as contas de juros da dívida passada que não foram pagas porque o superávit primário não foi suficiente era inflacionário porque não estava balizada em aumento da produção e ao mesmo tempo esse dinheiro a mais iria expandir a quantidade de dinheiro na economia. Com o lançamento de títulos públicos esse processo inflacionário não acontece porque o governo paga as contas que ficaram pendentes pegando um empréstimo no mercado. E ele pega esse empréstimo por meio do lançamento dos títulos. Ou seja, ele lança o título público com a promessa de pagar juros e devolver o dinheiro ao final do período. Esse dinheiro sai das contas das pessoas que compraram o título e vai para o governo e o governo, com esses recursos, paga a conta de quem ele está devendo. Assim o que ocorre é uma realocação dos recursos. O governo paga as contas que ficou devendo com o dinheiro obtido das pessoas que compraram os títulos públicos. Assim, não há aumento nem redução na quantidade de moeda em circulação na economia.
Dessa forma, chama-se déficit nominal ou superávit nominal o resultado do superávit primário com o pagamento de juros da dívida passada. Se o superávit primário for maior do que o pagamento de juros da dívida passada diz-se que tem-se superávit nominal; por outro lado, se o superávit primário for menor do que o pagamento dos juros da dívida passada, diz-se que tem-se um déficit nominal (o que via de regra ocorre na economia brasileira).
Supondo uma emissão de títulos públicos para financiar um déficit nominal, isso reduzirá a quantidade de dinheiro disponível para se aplicar em ações. Uma vez que esses recursos serão destinados a financiar o déficit do governo. Esse é um dos motivos para que quando o governo eleva reduz o superávit primário os analistas veem de forma negativa tal redução. Ou seja, com a redução do superávit primário mais títulos serão emitidos para financiar o déficit nominal daquele período. Portanto, reduzindo recursos que estavam ociosos (dinheiro poupado pelas pessoas) que poderiam ser direcionados para o mercado acionário.
O outro motivo é que quanto maior a dívida pública, a qual está sendo aumentada pela colocação de títulos públicos no mercado, fruto dos déficits nominais ano após ano, mais arriscado é para o mercado de títulos públicos. Imagine que você vá a um banco e peça um empréstimo para financiar seus gastos que foram maiores do que suas receitas. Imagine que daqui há 3 meses você volte ao banco, mais uma vez para pedir um empréstimos para financiar seus gastos que estão sendo superiores às suas receitas. É óbvio que essa situação não poderá se perpetuar por muito tempo. Isso porque chegará a hora em que o gerente do banco não lhe concederá crédito algum, uma vez que irá temer que você não o pague.
Ao contrário de você, o governo terá muito mais crédito com o sistema financeiro. Dessa forma, poderá perpetuar por muitos anos uma situação em que seus gastos são superiores à sua receita. Na verdade, o que importa para o mercado é a relação da dívida pública total dividida pelo PIB, ou seja
dívida pública/PIB. Se a dívida pública, que vai variando ao longo do tempo devido aos saldos nominais (déficits nominais ou superávits nominais), crescer mais do que cresce o PIB da economia, isso causará medo no mercado de renda fixa (onde os títulos públicos são negociados). (O crescimento do PIB é importante porque a receita do governo, por meio dos impostos, aumenta com o aumento do produto da economia.) A situação pode ser tal, que o mercado entenda que o governo não terá como pagar o que deve sem se ver obrigado a emitir moeda, e, com isso, gerar inflação.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Uma Crítica Construtiva à Técnica de "Valuation"
A melhor forma de se investir no mercado acionário é por meio da técnica de "Valuation". Para os que estudaram Administração, Economia ou, ainda, Engenharia de Produção trata-se do VPL (o valor presente líquido): você desconta os fluxos de caixa futuro para o presente (que no caso é daqui a 1 ano...por isso o preço-alvo de um ativo é dado sempre para um ano; assim é porque no caso do mercado acionário não existe investimento inicial, daí que você não traz para a data zero, você deixa na data do primeiro período mesmo). A taxa que se usa para se descontar esse fluxo de caixa é extraída do CAPM (o "Capital Asset Pricing Model"), por meio do beta (a tão famigerada Econometria, dos Estatísticos e Economistas).
No entanto, há um problema sério com esse modelo (o modelo CAPM). Não sei se você já se deu ao trabalho de rodar um CAPM, trata-se de uma regressão simples e como tal na prática tem sérios problemas de autocorrelação e heteroscedasticidade. Em outras palavras, os resultados para o beta são inconsistentes, não se pode testá-los por meio dos Testes de Hipóteses, pois estes são falhos.O que para quem estudou algum curso que seja de Estatística, sabe que é algo muito sério não passar nos Testes de Hipóteses.
Mas então como as instituições financeiras fazem o preço-alvo? Bom, o que elas fazem é transformar o modelo de regressão simples em um modelo de regressão múltipla. Como? Quando se roda o CAPM se supõe que a única coisa que afeta o preço de um ativo seja a volatilidade de um mega índice como o Ibovespa ou o IBX 100 (é verdade que algumas instituições usam o beta extraído como regressão simples, porém seus resultados não servem para nada). No entanto, outras variáveis também afetam uma determinada empresa e, por conseguinte, também têm efeitos sobre o preço estimado para o ativo daqui a um ano. Digamos que a empresa que estamos analisando tenha uma parte significativa de suas receitas provindas do mercado externo, ou seja, de suas exportações. É natural que uma alteração na taxa de câmbio afete os resultados futuros dessa empresa. Portanto, a taxa de câmbio deve entrar no CAPM. Da mesma forma, uma empresa que dependa muito do petróleo, como é o caso do setor de aviação que tem parte significativa de seus custos atrelados ao óleo diesel, também terá que por em seu CAPM uma variável para o barril de petróleo.
Acho que já deu para você ter idéia do quão complicado é para uma pessoa de fora do mercado financeiro, ou seja, que não possua todos os recursos que as instituições financeiras que atuam no mercado financeiro tem: como série dos preços do barril de petróleo ao longo do tempo, série do risco país, série da quantidade de consumidores que ganhem mais do que X (no caso de um bem de luxo é importantíssimo), série da taxa de juros LIBOR, e por aí vai...
Ainda que se tenha isso e se possa calcular, não será factível fazer para inúmeros ativos. O que se faz é montar o modelo do CAPM com as expansões que lhe falei, lembrando que cada empresa é um caso, e descontar o fluxo de caixa, o qual também possui toda uma técnica própria. A outra coisa que se faz, essa menos eficiente, é se rodar o modelo CAPM tradicional, da série das cotações de fechamento de um ativo pela série de fechamento do IBOVESPA para o mesmo período. Ainda que o coeficiente angular (beta) não passe nos Testes de Hipóteses, usa-se ele ainda assim. O que torna a análise posterior sem significado algum (acredite, isso é muito feito pelas instituições financeiras).
A técnica de "Valuation" é a melhor de todas, até porque lhe permite criar cenários: pessimista, moderado e otimista, por exemplo. De forma que você tem um intervalo em que se estima que o ativo se colocará ao fim de um ano. (Detalhe, o preço-alvo que se vê quando uma corretora indica é, em geral, o cenário moderado, o qual fica no meio dos extremos.)
O problema do "Valuation" é que dá trabalho demais e ano após ano você tem que re-estudar a empresa para alterar o modelo de equação que você montou. Por exemplo, digamos que a empresa "A" tenha uma grande dívida em dólar, de forma que tanto a taxa de câmbio quanto a "prime rate" são importantes no modelo para se calcular a taxa de desconto para o fluxo de caixa. No entanto, com o passar do tempo isso pode se alterar, uma vez que a empresa pode reduzir drasticamente sua dívida externa. Então terá que se fazer um novo estudo, alterando as variáveis envolvidas. Por isso não me esforço tanto para fazer o "Valluation", mesmo sabendo que a margem de erro seria e muito reduzida, uma vez que não sofreria das oscilações do mercado.