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terça-feira, 16 de novembro de 2010

As Empresas Estatais Foram vendidas Baratas?

Em uma outra postagem aqui no blog eu falei sobre as privatizações. Deixei, àquela feita, a indicação de que iria voltar a abordar o assunto. Volto agora para questionar se as vendas das estatais foram vendidas a preço de banana, como muitas vezes se diz.
 
O preço que se vai pagar por qualquer empreendimento não deve estar baseado no capital social da empresa, ou mesmo no seu patrimônio líquido, como alguns argumentam. Tanto o capital social quanto o patrimônio líquido indicam o que a empresa conquistou, o quanto de capital societário ela possui ou o quanto ela possui de patrimônio próprio, respectivamente. No entanto, para quem compra uma empresa o que importa é o potencial de geração de caixa futuro, que será dado pelo fluxo de caixa advindo dos próximos períodos até a maturação do investimento realizado; onde não mais se pode realizar novos lucros sem que se faça novos investimentos. É a geração do fluxo de caixa que importará, uma vez que é esse que entrará de fato de ganho para quem adquiriu o novo negócio. Os ganhos realizados no passado remuneraram quem administrava a empresa no passado. Para quem a compra hoje, o que importa é o ganho futuro.
 
Ah, mas e o patrimônio comprado? Ele não tem valor? Sim, tem. No entanto, serve apenas como estoque de maquinário. Quando se quer saber qual o valor de mercado de uma empresa cotada em bolsa, o que se faz é multiplicar o preço da ação pelo número de ações existentes. Pega-se o preço da ação porque, em tese, este representa a expectativa dos dividendos futuros descontados ao longo do tempo pela taxa de desconto apropriada. Se isso vale para uma empresa privada, o mesmo é válido para uma empresa pública, como o é para qualquer outro empreendimento. O cálculo reflete os dividendos futuros porque mais cedo ou mais tarde o lucro obtido hoje será repassado para seus acionistas. Mesmo o lucro retido será, um dia, repassado ao acionista por meio de dividendo ou de aumento de preço (o que refletirá o ganho de capital obtido). (Vale realçar, a essa altura, que um bom gestor é aquele em que o lucro só é retido enquanto a empresa tiver taxas de expansão superiores àquelas que um acionistas poderia obter aplicando o valor obtido com o recebimento dos dividendos.)
 
Na verdade, o desconto do fluxo de caixa futuro da empresa, ao longo do tempo, por uma taxa de desconto apropriada reflete o tão decantado Valor Presente Líquido (VPL). Uma técnica muito conhecida entre os economistas, os administradores, os contabilistas, os engenheiros econômicos, entre outros. A própria técnica de se calcular o preço justo de uma ação é elaborada com base na técnica de VPL, como já o expliquei em uma outra postagem aqui, quando falei na técnica de valuation.
 
Desta forma, o primeiro dilema para se saber se as empresas estatais foram vendidas baratas está inserido na forma como o preço justo de um ativo, no caso, de uma empresa deve ser feito. Não pelo total do patrimônio líquido ou o total do capital social, e sim pelo desconto, à taxa de desconto apropriada, do fluxo de caixa futuro.
 
O segundo ponto a se ressaltar tem a ver com a condição pela qual o país passava quando houve o auge das privatizações. Como o disse em outra postagem, as privatizações foram muito importantes durante uma época em nosso país porque os recursos das privatizações foram usados para cobrir o déficit fiscal de dado ano, em uma época em que não produzíamos superávits primários (leia o texto sobre a política fiscal onde explico como se calcula o superávit primário e a importância deste para a economia). Assim, uma vez que os agentes saibam que o governo precisa do dinheiro das privatizações para cobrir parte do déficit público existente. Déficit público este que a essa época girava em torno dos 7 a 8% do PIB ao ano, em média. E, além disso, sabendo os agentes dispostos a comprar essas empresas estatais que o governo teria que pagar taxas de juros mais altas se não houvesse o dinheiro provindo das privatizações, esses regateavam o quanto lhes era possível.
 
Primeiro, os próprios recursos para pagar pelos leilões de privatizações não raro advinha do próprio BNDES, com crédito financiado pela taxa de juros de longo prazo (TJLP), uma taxa de juros mais barata frente às existentes no mercado. Segundo, davam lances inferiores àqueles esperados pelo governo; sendo a venda dessas empresas públicas vendidas pelo preço mínimo ou por um preço próximo ao mínimo exigido.
 
Não é questão de se o governo acertou ou errou. A questão é que o governo não tinha dinheiro para fazer novos investimentos para melhorar o maquinário e a tecnologia das empresas públicas. Do mesmo modo, alguns setores estavam muito defasados tecnologicamente e eram estratégicos que novos investimentos fossem feitos, como o caso do setor de telecomunicações. O grande entrave foi o desajuste das contas públicas à época, conhecidos por todos. O que resultou em necessidade por parte do governo. Ora, se vocêe sabe que alguém passa necessidade financeira e precisa de capital. Você tem o capital e é um empresário. Por que você vai pagar o preço justo dado pelo desconto do fluxo de caixa, ou seja, a técnica do VPL, se você pode regatear e pagar menos no leilão - até porque você sabe que os outros também pensarão assim, como você está pensando? Daí que era natural que alguns setores fossem vendidos por um preço inferior ao preço adequado. Ainda assim, como dito antes, o preço justo não é o preço registrado no capital social nem tampouco no patrimônio líquido, e isso é importante para que não se crie confusões. confusões essas muito comuns entre os estudantes e os iniciantes no assunto.
 
 
 
 
 
 

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