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domingo, 20 de março de 2011

O Quanto a Política Econômica Pode Afetar Nossa Vida

Muitas pessoas, infelizmente, não se dão conta do quanto uma determinada política governamental pode afetar nossas vidas. Na verdade, o efeito de uma determinada política econômica só será sentido, em dadas situações, anos depois. O exemplo mais clássico e notório é o do Plano Real. As pessoas costumam acreditar que o efeito do Plano Real foi o de que reduziu a inflação, trazendo estabilidade e a consequente, possibilidade de se investir a longo prazo ou comprar por um prazo mais longo. E isso ocorreu porque fica crível saber quanto se pagará por uma prestação que irá ser paga daqui a 6 meses, ou investir para obter um retorno para daqui a 1 ano, por exemplo. O valor do dinheiro é o mesmo, independente do decurso do tempo, em um cenário de estabilidade dos preços.

No entanto, o efeito do Plano Real foi além disso. Existem alguns motivos que fazem com que as taxas de juros sejam elevadas, no Brasil, entre eles a inadimplência e a baixa poupança nacional. O Brasil tinha até antes do Plano Real um histórico de ter realizado 7 acordos com o FMI e ter feito o favor de descumprir os 7. Isso muito ocorria devido as constantes desestabilidades monetárias que o país sofria. A partir do Plano Real, com o compromisso firmado com a estabilidade monetária, não era mais possível ao governo brasileiro imprimir mais moedas para pagar a dívida contraída no passado. Dessa forma, o governo precisava captar recursos no mercado, poupanças privadas, para pagar sua dívida para qual não havia poupado recursos para pagar. Assim, o governo precisava cumprir o que acordara antes e evitar uma escalada inflacionária, fruto da emissão monetária para pagar a dívida que vencia.

O problema é que a essa época, os primeiros anos do Plano Real, o gasto do governo era muito elevado frente as receitas. Ainda não havíamos iniciado o processo de escalada da carga tributária. Assim, gerávamos um déficit primário. Em outras palavras, gastávamos mais do que arrecadávamos. Mais que isso, o resultado primário é calculado confrontando-se as receitas e as despesas para um dado ano, antes de se calcular o pagamento dos juros da dívida passada. Assim, o governo não só não tinha recursos para pagar o principal e o juros do último período  da dívida que estava vencendo, como também não tinha dinheiro para pagar os juros de outras dívidas que ainda não estavam vencendo e ainda precisava pegar dinheiro no mercado para pagar as despesas desse ano em curso para a qual o gasto fora superior a arrecadação (o tal déficit primário).

Em um cenário como esse, o montante que o governo precisa captar no mercado é muito elevado. Como nossas poupanças internas são baixas sofríamos de duas anomalias. A primeira, como havia mais pessoas procurando dinheiro emprestado do que pessoas dispostas a emprestar (aqui, para nós, pessoas tanto são físicas quanto jurídicas, da mesma forma, tanto podem ser públicas quanto privadas), o custo desse dinheiro era elevado. Chamamos em Economia o custo do dinheiro de taxa de juros. Portanto, fica claro o porquê nessa época as taxas de juros eram tão elevadas. Era elevada porque o governo gastava mais do que podia e ia pegar parte das poupanças que seriam direcionadas para os investimentos das empresas e às compras a prazo que as pessoas fazem no crediário. Assim, havia muita gente procurando empréstimos e pouca gente disposta a emprestar, fazendo com que, no Brasil, as taxas de juros fossem tão elevadas. Do mesmo modo, fica claro porque, após passarmos a ter durante anos seguidos uma política de superávit primário, as taxas de juros foram, aos poucos baixando no Brasil.

A outra anomalia, é que, o governo, para baixar as taxas de juros internas, precisava aumentar o volume de oferta de moeda. Para tanto, ele acabou deixando que adentrasse o país uma grande quantidade de recursos estrangeiros que vinham apenas especular com ativos, no Brasil. Por maiores que fossem as críticas na época, não havia outra escolha até que se ajustassem as contas internas. O ajuste veio por meio do aumento da carga tributária, que continua a crescer ainda hoje.

Dessa forma, sofriamos no início do Plano real com baixo montante de investimentos, fruto das elevadas taxas de juros. Isso gerava pouco emprego, aumentando as carências da população. Hoje, sofremos da carga tributária elevada. Com ela, os preços dos produtos são maiores do que o seriam de outra forma. A consequência é que temos dificuldades de fazer com que nosso produto concorra no exterior. Daí as inúmeras desonerações da produção que se destina ao estrangeiro, uma forma de desencarecer o produto nacional no exterior.

A outra distorção da elevada carga tributária é que nesse cenário a demanda é menor do que deveria ser. Pessoas que estariam dispostas a comprar uma determinada quantidade de certo produto, compram menos ou não o compram, simplesmente porque não cabe em seu orçamento, dado o elevado preço dos produtos no Brasil. A consequência é que os custos de produção são maiores (o aumento da produção gera ganhos de escala que fazem reduzir os custos unitários do produto, em muitas indústrias) e as receitas, dependendo da elasticidade preço do produto, também são menores na maior parte dos casos.

A política econômica afeta, e muito, sua vida. Fique de olho, é bom saber o impacto que uma dada política econômica pode ter sobre sua vida, sobre a vida de sua empresa ou sobre a vida de uma empresa que você queira investir.

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